pra pensar antes de investir em uma peça de roupa cara

As opções são muitas e a tentação, avassaladora. Mas será mesmo que estamos fazendo um bom negócio investindo em peças de grife? 

 

Ao menos uma vez em nossa (longa) vida como consumidoras de moda a ideia de investir em uma peça de roupa ou sapato mais caro passou pela nossa cabeça. Afinal, como resistir a tantas opções maravilhosas de roupas, calçados e bolsas por aí?  Porém, antes de sair por aí gastando seu tão suado dinheirinho, é legal considerar alguns pontos sobre "investir" nesse tal objeto-desejo. 

Eu confesso: já comprei roupa cara por impulso e depois senti o gosto amargo do arrependimento; aliás, acho que a maioria de nós já cometeu o mesmo erro em algum momento na vida. Ainda bem que as lojas geralmente aceitam trocas caso o produto não tenha sido usado e ainda possui a etiqueta e afins.

Uma curiosidade: depois que me mudei pra Londres percebi que a política de troca e reembolso aqui é MUITO mais flexível do que no Brasil: as pessoas compram sem o receio de não poder trocar depois. E as lojas, por outro lado, são generosamente flexíveis em relação a isso. Me lembro que no Brasil eu me sentia mega culpada em devolver ou trocar um produto. Já chegava na loja pensando no discurso que faria pra vendedora, justificando minha decisão. #quemnunca. Aqui entendi que é um direito seu e, desde que o item não tenha sido usado, tá tudo bem. 

Voltando ao assunto, quando o assunto é aquele peça-desejo é mais díficil se render à tentação - ainda mais se seu bolso te permitir. Então antes de embarcar numa compra com o valor de no mínimo três dígitos, vale fazer alguns questionamentos pra garantir a sua felicidade – pessoal e financeira – por mais tempo.

 

#1 Eu já tenho algo parecido?

Antes de tudo: dê uma boa olhada em seu guarda-roupa e avalie bem se esse novo objeto de desejo não acabaria se tornando mais do mesmo. Caso não, pule para a segunda pergunta. 

Ok, então você já tem uma peça parecida. Então comece pensando de verdade se o dinheiro investido de fato valeria a pena. Digamos que o item em questão é um fabuloso vestido preto de um estilista super famoso. Você já possui ao menos três peças similares que custaram muito menos (mas que você adora) e ainda assim continua procurando por outro? Caso sim, talvez você deveria abortar a ideia de gastar um dinheirão em um novo a não ser que queira abrir mão de todos os outros para ficar com somente um. Por que? Porque é fato comprovado que quanto mais você tem, menos você usa.

 

#2 Eu amo comprar e/ou eu sou viciada em fast-fashion?

Essa é uma pergunta certeira. Não vou julgá-la por você ter o hábito de comprar coisinhas que você de fato não precisa, afinal nesse quesito a maioria de nós é um pouco culpada. Mas é preciso mentalizar se, ao gastar uma boa quantia em uma peça cara, você ainda vai querer comprar outros artigos parecidos toda vez que for ao shopping.

Por exemplo: se você comprar uma bolsa bacana que custa umas boas centenas de dinheiros, você consegue se imaginar não comprando mais nenhuma outra bolsa – não importa quão barata ou trend for – pelo próximo um ano ou dois? Quando alguém compra um novo carro ou uma nova casa, essa pessoa não compra outras casas menores ou carro mais simples alguns meses depois, compra? Seguir essa mesma linha de raciocínio talvez te ajude em relação a itens de moda. Se você sabe que é uma mulher que adora ter uma variedade legal de bolsas, por exemplo, talvez comprar uma caríssima não seja uma boa ideia.

 

#3 A compra desse item vai abalar meu orçamento?

Um outro ponto super importante para avaliar é o quanto a aquisição de uma peça cara irá balançar seu orçamento. Em outras palavras, investir num vestido caríssimo vai prejudicar o pagamento da sua conta de celular ou do cartão de crédito no final do mês? Caso sim, é uma boa ideia postergar a compra e começar a guardar dinheiro todos os meses até que você tenha um montante suficiente para ter seu vestido dos sonhos sem culpa. Tem coisa mais gostosa?

 

#4 Se esse item estivesse sem etiqueta eu ainda iria quer tê-lo?

Como amantes de moda, é natural que nosso inconsciente mais chique e fashionista entre em pane quando vemos uma peça de um estilista ou marca super famosos. Aliás, na maioria das vezes a gente nunca sentiu necessidade de ter aquela peça - até dermos de cara com ela na loja/ou online. Sabe aquela tal história do marketing e publicidade criarem "necessidades"? Rá, caímos direitinho!

Então pensa assim: se a o item em questão não tivesse aquela etiqueta tão tentadora, você compraria? É claro que há exceções e outras nuances nesse assunto, como a qualidade e manufatura do item, que geralmente são bem superiores dependendo da marca e isso tem sim que ser levado em consideração. Eu, por exemplo, piro na Max Mara. Gosto de tudo: das cores, dos cortes, das campanhas. Acho foda. Taí uma marca que eu investiria uma grana em uma peça legal, tipo um belo vestido ou casaco. 

Legal ter em mente que marcas mais tradicionais geralmente vem carregadas de história, status e um processo de produção elaborado - Hermés, Burberry, Chanel e outras mais estão aí pra comprovar. Quando você compra uma peça de grifes assim, você também leva todo um imaginário, a aura da marca...e isso tudo é materializado naquela pequena etiqueta. 

Portanto, vale entender o significado dessa compra na sua vida...e entender o que esse etiqueta representa para você. 

 

#5 Se as redes sociais não existissem, você ainda iria querer essa roupa/calçado?

"Oi, ego! Nós não gostamos de admitir que você existe, mas, né, vou te satisfazer comprando aquele jeans que custa o olho da cara pra postar no Instagram minha nova aquisição." 

Eu quero, eu posso, eu tenho. Díficil falar de status, ainda mais numa sociedade completamente orientada a isso. O que muitas vezes ocorre é: não precisamos daquilo e no fundo sabemos que a peça nem vale toda a grana, mas ainda assim vamos em frente e torramos nosso dinheiro (justificando a qualidade, talvez?). No fundo no fundo aquele dinheiro foi investido em likes nas redes sociais e no prazer de receber elogios ou parecer muito cool. Nosso companheiro ego chora de alegria.  

Então sejamos sinceras: você está comprando aquela bolsa de mil dinheiros por que você realmente deseja muito tê-la ou por que, no fundo, quer que outras pessoas saibam que você tem um exemplar? 

 

#6 Estou comprando esse item por impulso?

A gente encontra promoções, saldos, descontos online e afins todos os dias, na vida e na internet. Ao mesmo tempo em que isso poder ser ótimo se você está procurando por um item que de fato necessita, também pode ser um sinal de perigo. Vamos pensar, por exemplo, naquela pessoa que quando acordou nessa manhã não tinha ideia de que estava precisando/querendo aquele casaco caro…até receber uma newsletter de uma loja cara qualquer informando sobre uma super promoção com descontos de até 70%. A compra, nesse caso, seria totalmente impulsionada pelo novo preço. As consequências disso? Em última instância, mais um item para a coleção de peças-que-não-combinam com o restante de seu guarda-roupa. 

Se você estiver a tempos procurando por aquele jeans dos sonhos e de repente encontra uma ótima promoção, vá fundo. Entretanto, se você está prestes a gastar centenas de dinheiros em um par de sapatos que você nunca viu antes mas está em promoção, pare e repense.  Afinal, a maioria das compras por impulso acabam por causar sérios casos do que chamamos de “dissonância cognitiva da compra” (em outras palavras, um gigante remorso).

 

E você, qual a peça mais cara do seu guarda-roupa? Ela foi adquirida depois de planejamento e procura ou foi super por impulso? Qual a sua relação com ela hoje?
Nathalie Bonome